quarta-feira, 8 de agosto de 2012

QUE SE RETIRE O BIOMBO POLÍTICO


  1. O líder do maior partido político da oposição, Isaías Samakuva, presidente da UNITA, e o presidente da CASA-CE, Abel Chivukuvuku, lançaram um repto ao presidente do MPLA e seu cabeça de lista às próximas eleições, José Eduardo dos Santos, para um debate, a fim de esgrimirem em público os seus argumentos para o pleito eleitoral do dia 31 de Agosto. Este convite transformou-se, assim, num facto político que passou a ser tema de análise para jornalistas e analistas políticos. Teve um tal impacto, ao ponto de fazer parecer que terá sido em Angola que foi feita a descoberta da roda…



  1. Na realidade, os debates públicos entre candidatos são uma prática normal em democracia. Infelizmente, para nós, democraticamente muito atrasados, um evento desse género funcionará como uma descoberta fenomenal. Merecerá, por parte de alguns, o soltar do célebre grito “Eureka!”, a velha expressão que é historicamente atribuída ao matemático grego Arquimedes de Siracusa (ainda antes de Cristo), quando ele, mergulhado numa banheira, constatou que o volume de qualquer corpo pode ser calculado medindo o volume da água movida quando o corpo é submergido nela.



  1. Para alguns, pelo que tenho constatado nas suas intervenções, desafiar José Eduardo dos Santos para um debate público equivalerá a uma espécie de “heresia”, devendo, por isso, os “hereges” serem levados a um qualquer “tribunal de inquisição”, pois que o “Chefe” não se contesta, muito menos se confronta. Dirão estes, então: “Afinal, o que é isso?! Onde é que estamos, então?!”



  1. Mas, vamos, por momentos, recordar um pouco da nossa história “democrática” dos últimos 20 anos.



  1. Das eleições de 1992, vêm-me muitas vezes à memória as entrevistas individuais feitas pela televisão a alguns dos candidatos de então. Que me lembre, apenas não foram entrevistados José Eduardo dos Santos, Jonas Savimbi e Holden Roberto.



  1. Em 1992, não tiveram propriamente lugar debates entre candidatos, como os que agora propõem Isaías Samakuva e Abel Chivukuvuku a José Eduardo dos Santos. Foi um “pivot” da televisão que se encarregou de questionar os candidatos, e abriu depois o espaço para os questionamentos vindos dos telespectadores.



  1. De um modo geral, os telespectadores que entraram em directo portaram-se com elevação e civismo. Porém, houve quem tivesse optado pela deselegância e pelo insulto, descarregando sobre alguns dos candidatos os seus preconceitos e as suas frustrações. Fica, pois, para a memória, essa tentativa de exercício democrático, mesmo com as limitações que apontei.



  1. Como foi algo de inédito, de um modo geral, os protagonistas mostraram uma razoável imaturidade, chegando, em alguns casos, a ser mesmo até risíveis. Penso que esses chamados “candidatos menores” apareceram, mais porque necessitavam de ter alguma visibilidade. Eles eram, como se viu, desconhecidos do grande público. Passaram-se 16 anos e, em 2008, nas segundas eleições, já com outros protagonistas, nem mesmo aquele “cheirinho democrático” se repetiu.



  1. É bom que se diga que as eleições de 2008 não foram presidenciais, tais como em 1992 (em que houve, simultaneamente, legislativas e presidenciais). Dos grandes protagonistas de 1992 restaram, como cabeças de lista dos seus partidos, apenas José Eduardo dos Santos, presidente do MPLA, e Anália de Vitória Pereira, do PLD. Rui de Vitória Pereira, Milton Kilandomoko, Holden Roberto, Jonas Savimbi, Mfulunpinga Landu Victor, deixaram de fazer parte da pauta eleitoral de 2008, porque já não faziam parte do mundo dos vivos.



  1. Não há, portanto, entre nós, uma cultura do debate político público entre candidatos. As entrevistas de 1992 a alguns candidatos podem considerar-se episódicas e não fizeram escola. O confronto directo entre candidatos jamais foi praticado aqui no nosso meio.



  1. O que temos visto, sim, desde há alguns anos atrás, é o debate público radiofónico (poucas vezes, televisivo), geralmente exercitado por quadros técnicos ou por quadros políticos de escalão mais ou menos intermédio. Hoje por hoje, por razões que a razão desconhece (será mesmo que desconhece?) até mesmo esse debate público vai sendo espartilhado. Tem se feito questão de deixar todo o espaço de intervenção pública a vozes de um só tom. Ou mais ou menos assim.



  1. Por norma, os grandes responsáveis políticos, os grandes decisores políticos escondem-se por detrás de verdadeiras redomas, ficando, assim, protegidos das críticas directas. Ficamos, pois, sem saber qual a sua real capacidade discursiva. De papel na mão, seguramente escrito por assessores, lá vão eles, então, aparecendo a debitar ideias e propostas, ao ponto até de se enganarem na pontuação.



  1. Também é verdade que os grandes decisores políticos jamais escrevem algum texto de opinião para um jornal ou um semanário, como é prática corrente nos países democráticos e entre políticos que não temem esconder as suas reais capacidades. Esse défice de exposição pública faz-nos parecer que somos governados por seres extraterrestres…



  1. As nossas campanhas eleitorais são, sim, uma farsa. Elas baseiam-se na apresentação de documentos, por norma encomendados a empresas especializadas e que se fazem pagar por muito dinheiro. O resto é, quando muito, charme pessoal e um grande desrespeito pela palavra dada, baseados no pressuposto de que a memória popular é demasiado curta, não ultrapassando geralmente os 6 meses. Por isso mesmo, nas nossas campanhas eleitorais fazem-se promessas mirabolantes, sabendo-se, antecipadamente, que não serão cumpridas.



  1. O respeito pela palavra dada não faz parte do nosso historial político, nem no período do partido único, nem neste período mais recente que eu ainda não consigo caracterizar bem. O recurso ao “ilusionismo político” é, pois, uma prática corrente.



  1. O confronto entre candidatos, em debate público, seria uma forma de vermos uns e outros a esgrimirem os seus argumentos e a mostrarem as suas reais capacidades. Deixariam, assim, de ter as suas capacidades disfarçadas por detrás de algum biombo… Por via dos debates públicos, em pé de igualdade, veríamos quem é quem, e quem, de facto, vive à custa das assessorias e das suas máquinas partidárias…



  1. Em democracia, é necessário conhecer-se bem quem pretende mandar em nós, para sabermos em que mãos nós estamos a entregar o nosso futuro. É que, por vezes, os protagonistas mais não passam de marionetas nas mãos de aparelhos partidários. Não poucas vezes até de máquinas perversas… Conhecem-se variados exemplos de verdadeiros grupos mafiosos que se escondem por detrás de instituições de aparência credível.



  1. Veja-se o modo como, nesta campanha eleitoral, se está a utilizar uma fotografia de há trinta anos para representar um candidato de agora. Clara manipulação de imagem que indicia, sobretudo, falta de escrúpulos. Isso não passa de uma espécie de “doping político”. Pretende-se, assim, emprestar uma imerecida vantagem de imagem a um determinado concorrente.



  1. Sou, claramente, pelo debate de ideias em público, entre aqueles que querem definir os destinos do nosso país e guiar as nossas vidas nos próximos cinco anos. Não compreendo, pois, como é possível alguém dizer-se democrata e, de seguida, escusar-se ao debate com aqueles com quem disputa o mesmo lugar.



  1.  Será, porém, um tremendo erro candidatos da oposição aceitarem debater entre si, deixando de fora quem tem o lugar em causa. Num debate apenas entre candidatos da oposição seriam apenas eles que se desgastariam. Já basta todas as demais vantagens. Dar-se ainda mais uma a quem já beneficia das outras todas, entre elas a de continuar resguardado por detrás de uma redoma, seria, penso eu, de uma ingenuidade imperdoável!

SOBRE “ANGOLA: A TERCEIRA ALTERNATIVA”


  1. O Dr. Marcolino Moco, autor do livro que me cabe agora apresentar, possui um portal denominado “À MESA DO CAFÉ”, no qual, com alguma regularidade, vai colocando ideias sobre questões que mais prendem a sua atenção. Como ele próprio diz na introdução a este texto, a sua primeira tentação foi a de elaborar apenas mais um dos seus comentários. Porém, o facto ocorrido no dia 3 de Setembro de 2011, quando um grupo de jovens pacíficos decidiu manifestar-se publicamente, pareceu-lhe merecer mais do que um simples comentário, pois a “ousadia” dos jovens manifestantes traduziu-se num balanço muito negativo, com presos, feridos e mesmo alguns desaparecidos. Depois de muita expectativa e de um julgamento mal conduzido, em primeira instância, o Tribunal Supremo decidiu enviar os jovens em liberdade.



  1. Esse episódio – que, inesperadamente, se transformou num marco na luta pública e pacífica pela democracia – consolidou na sua mente a ideia de que, afinal, tudo quanto se passa de essencial na vida pública e na vida política do nosso país decorre, geralmente, da “natureza do regime político que o actual Presidente em funções imprimiu a partir de meados dos anos noventa, a coberto da guerra pós eleitoral…”.[1]



  1. Marcolino Moço preferiu, então, abandonar a ideia de fazer uma abordagem meramente factual, casuística e que seria, por isso, bastante redutora, passando, assim, e de imediato, a questionar a natureza do regime em vigor, que designa como “todo um sistema perverso gerador desses eventos nefastos”.[2]



  1. O seu ânimo discursivo, numa autópsia antecipada ao actual regime, foi estimulado ainda por outros actos de repressão que se seguiram ao facto do dia 3 de Setembro de 2011 como, por exemplo, “a exoneração à moda antiga[3] da então Ministra da Energia, ela que foi sacrificada no “purgatório de políticas de «cavalos brancos»[4]fazendo-a passar pela grande responsável pela falta de energia e água de que padece grande parte da nossa população. Reeditou-se, assim, um método que se tornou habitual e que consiste em exonerar todas as responsabilidades do círculo presidencial, passando-as, na íntegra, para a esfera dos ministros, feitos publicamente bodes expiatórios.



  1. Neste momento em que, em muitos países democráticos, se assiste a uma verdadeira onda de contestação popular contra certas políticas governamentais que limitam os direitos adquiridos pelos cidadãos, ou mesmo a favor da instalação de democracias, ali onde elas não existem, Marcolino Moco optou por dissecar peça por peça, músculo por músculo, vaso por vaso, o corpo de um regime que ele bem conhece, pois fez dele parte, tendo mesmo ocupado cargos de enorme relevância, seja ao nível partidário (chegou a Secretário Geral do MPLA), seja ao nível governamental (foi Primeiro Ministro do governo saído da eleições de 1992). Representou ainda o nosso Estado, enquanto primeiro Secretário Executivo da CPLP – a Comunidade dos Estados de Língua Portuguesa.



  1. A sua experiência internacional e a possibilidade que passou a ter de olhar o mundo e o país a partir de fora, deram-lhe esta capacidade que agora aqui demonstra de perceber os pontos fracos do actual regime, assim como a sua relutância em entender quão antiquados são os métodos que utiliza para conter a crescente onda de contestação social que se vive hoje em Angola.



  1. Entendo perfeitamente por que razão o Dr. Marcolino Moco escolheu esta forma de intervenção pública. É que, assim, ele pode mais facilmente jogar um papel conciliador e agregador de diversas vontades de mudança que se manifestam na nossa sociedade, pois teme uma eventual introdução de factores de ruptura que possam funcionar como elementos desestabilizadores da paz social que é imperioso manter e consolidar. Contudo, tal não o inibe de apontar o seu bisturi analítico para o alvo certeiro, para o tecido cancerígeno, para a parte do nosso corpo político do qual irradiam as metástases que contaminam o conjunto da nossa sociedade.



  1. Marcolino Moco teve também o cuidado de explicar o porquê do título atribuído ao seu trabalho “Angola: a terceira alternativa”. Diz que se inspirou numa obra de Stephen R. Covey, que propõe uma nova abordagem para a solução dos problemas do mundo actual. Teve, assim, o cuidado de explicar que não pretende desenhar sozinho uma típica “terceira via mas, sim, pôr o acento tónico em aspectos essenciais do presente regime político. É, afinal, a essência e a substância deste regime que é importante analisar. Estende a sua análise crítica ao conjunto do sistema político, bem como ao papel dos diversos intervenientes sociais.



  1. Parte dizendo que urge, desde já, abandonar em definitivo a actual concepção personalizada do poder. De seguida, enumera um esboço de Agenda Nacional, assente em dez vertentes, servindo de método da Terceira Alternativa:



i)                   O respeito pelos direitos humanos fundamentais, colocando a dignidade humana acima de todos os valores. E para ilustrar essa ideia busca uma frase em umbundo, a sua língua materna: “Omanu vakola. Omuenyo ukola”. Ou seja: “Sagradas são as pessoas. Sagrada é a vida”. Isto é: “Sagrado não é o dinheiro nem mesmo o poder”.[5]

ii)                Governar é servir e não servir-se. Aqui apela a uma verdadeira mudança de mentalidades, mais até do que a introdução de formalismos constitucionais ou legais.

iii)              Angola é uma unidade na diversidade. Não vale, pois, a pena taparmos o sol com a peneira, disfarçando, por exemplo, o carácter étnico-regional de alguns dos nossos conflitos. Uma questão que tem de deixar de ser tabu.

iv)              É urgente a despartidarização do Estado-Nação

v)                A necessidade de eliminar fantasmas e enterrá-los juntamente com todos os outros “cadáveres psicológicos”. Com tais fantasmas e “cadáveres psicológicos” desencorajaram-se diversas gerações de jovens de assumirem as suas responsabilidades e amedrontaram-se outros, inclusive, mais velhos, criando-se uma cultura de medo.

vi)              O respeito ao princípio republicano da alternância na ocupação de altos cargos de natureza pessoal, especialmente a nível da chefia de Estado e de governo.

vii)           Uma descentralização e desconcentração efectiva do poder, numa alusão ao poder autárquico que, felizmente, faz parte da agenda política dos próximos tempos. Contudo, os seus contornos ainda não estão definidos, não se sabendo, por isso, que impacto terá na vida futura do nosso país.

viii)         O fim pacífico da espoliação dos recursos nacionais e regionais por uma minoria. Esta é uma verdade inelutável, indisfarçável e fonte de contestação crescente. Poderá mesmo constituir-se em fonte de conflitos de consequências inimagináveis, por enquanto.

ix)              A libertação e democratização dos meios de comunicação social. Uma matéria que desmente os discursos falaciosos que se vão ouvindo e que mostra a real cultura política antidemocrática dos actuais detentores do poder.

x)                O regresso ao respeito do princípio de separação formal dos poderes de soberania, com especial realce para independência formal e efectiva do poder judicial.



  1. Logo no início da obra, o autor faz uma ligeira abordagem sobre “os porquês” da instabilidade que se instalou no nosso país, depois da queda do governo fascista de Salazar e Caetano. E aponta alguns dos eixos dessa instabilidade, como sendo: a Guerra-Fria; a irracionalidade do sistema colonial que se recusou, no devido tempo, ouvir e atender os sucessivos apelos para o diálogo lançados por líderes nacionalistas; a existência de 3 movimentos de libertação nacional com raízes sócio-antropológicas diferentes e que se mostraram incapazes de “amadurecer consensos na defesa do interesse nacional”; também a desconfiança dos 3 movimentos de libertação em relação à “componente branca”, o que terá contribuído para o seu êxodo, com as consequências socio-económicas que depois se viram.[6]



  1. De seguida, Marcolino Moco passa à análise da situação actual e dos perigos para o futuro, se tudo se mantiver como está agora. Desvenda o carácter perverso da actual Constituição, feita à medida da vontade de José Eduardo dos Santos concentrar todo o poder real nas suas mãos, provocando, como ele diz, a “anemia das restantes instituições”.[7]



  1. A instrumentalização de algumas organizações civis, o uso abusivo do erário público para o enriquecimento rápido e ilícito de um conjunto restrito de subservientes, a subversão dos princípios reitores do Estado de Direito Democrático, não escapam à sua análise.



  1. Tudo isso é, afinal, conseguido à custa de uma estrutura que apelida de iníqua e que “apresenta todos os condimentos necessários para a curto ou longo prazo se criar uma situação idêntica a que se vivia ou se vive em países e Estados em situação revolucionária hoje e ontem”. E passa a descrição desses elementos estruturais.



  1. Com algum pormenor, aponta o papel dos jovens no processo de mudança e passa, de seguida, à enumeração do papel das diversas instituições e agentes sociais e políticos na criação de uma sociedade pacífica e de progresso social: o papel do Presidente da República em funções; o papel do MPLA; o dos partidos de oposição; a sua visão sobre o papel das chamadas elites; a autoridade moral das igrejas, intelectuais e mais velhos; a comunidade internacional; a sociedade civil.



  1. Na parte final do livro, temos, então, o desenvolvimento da ideia daquilo que ele decidiu chamar “A Terceira Alternativa”, consubstanciada numa Agenda Nacional esquematicamente referida antes. São aqueles 10 eixos (ou vertentes) que já enumerei.



  1. Antes de terminar, gostaria de esmiuçar um pouco mais a ideia subjacente ao título escolhido.



  1. Segundo Marcolino Moco, tudo aponta para o falhanço da Primeira Alternativa. A Primeira Alternativa é esta que está em curso e que “tem sido geradora de conflitos insanáveis”. É a que “se sustenta no uso da soberania nacional por quem detém o poder, não importa sobre que base, de o suster a qualquer preço e sem ter que apresentar grandes justificações, para fazer dele o que entender, dentro das possibilidades que os adversários políticos permitem”. E depois acrescenta: “”Uma alternativa baseada em filosofias maquiavélicas, hobbianas e evolucionistas sociais, que encarnam o ser humano como um animal irracional em cujo reino vencerá o mais forte e dos restos seja “o que Deus (deles) quiser””. Nesta Primeira Alternativa, “os políticos, especialmente os estadistas usam sem limites o dinheiro para vigiar, intimidar ou torturar e matar – se necessário – os seus concidadãos, em quem não confiam, vendo em cada um deles um inimigo, já para não falar dos seus reais ou imaginários adversários políticos”. Eles ouvem apenas o que entendem ser-lhes favorável e deleitam-se “com manifestações a seu favor, investindo, porém, contra qualquer tipo de manifestação legítima e legal de quem deles tem necessidade efectiva”.[8]



  1. Para Marcolino Moco, o que presentemente se esboça em Angola é uma espécie de Segunda Alternativa, não mais do que uma mera reacção às excentricidades e abusos dos crentes e militantes da Primeira Alternativa. Diz mesmo que é uma alternativa revolucionária no pior sentido, do tipo “estes tipos não mudam, só à pancada”, ou então “olho por olho, dente por dente”, a destruição total da herança do anterior regime, para se “reconstruir tudo depois”.[9]



  1. A emergência da Segunda Alternativa seria, pois, uma consequência do carácter irredutível da Primeira Alternativa, de que, recentemente, a Líbia é um exemplo. A frustração, a saturação e a raiva geradas e concentradas pela Primeira Alternativa despoletam a Segunda Alternativa, dando lugar à substituição de um mal por outro mal, com a prevalência da lógica do “agora chegou a minha vez”. Em resumo, crê que, por essa via, a violência e a destruição ainda são possíveis.



  1. A Terceira Alternativa, aquela que o autor defende, e de que eu também partilho em grande medida, assenta nos pressupostos de que o homem evolui tanto biologicamente como socialmente, cabendo a nós, pois, confiarmos na razão humana e na sua capacidade de retirar bons ensinamentos do passado. “A evolução social deve ser conseguida através de um balanceamento de interesses e da cooperação entre os seres humanos”.[10]Nega, pois, os pressupostos em que se baseia tanto a Primeira como a Segunda Alternativas.



  1. Para o autor, a construção da Terceira Alternativa pode ser feita apelando a vários protagonistas alternativos ou cumulativamente, reservando ainda um eventual papel para o actual Presidente da República, não obstante os seus longos 33 anos de poder. Diz, porém, Marcolino Moco que ele já não tem nada a perder e sim, muito a ganhar. Para a Terceira Alternativa, também deve contar-se com os partidos políticos, com as autoridades morais da sociedade, com apoio da comunidade internacional, etc.



  1. “Angola: a Terceira Alternativa”, escrito por Marcolino Moco, é uma reflexão pessoal de um homem experiente, honesto e determinado. Aconselho-vos, pois, a lerem este verdadeiro Manifesto Político. Muito Obrigado!



[1] Marcolino Moco – “Angola: A Terceira Alternativa” – pag. 9
[2] Marcolino Moco – “Angola: A Terceira Alternativa” – pag. 10
[3] Marcolino Moco – “Angola: A Terceira Alternativa” – pag. 10
[4] Marcolino Moco – “Angola: A Terceira Alternativa” – pag. 10
[5] Marcolino Moco – “Angola: A Terceira Alternativa” – pag. 70
[6] Marcolino Moco – “Angola: A Terceira Alternativa” – pag. 15
[7] Marcolino Moco – “Angola: A Terceira Alternativa” – pag. 17
[8] Marcolino Moco – “Angola: A Terceira Alternativa” – pag. 65
[9] Marcolino Moco – “Angola: A Terceira Alternativa” – pag. 66
[10] Marcolino Moco – “Angola: A Terceira Alternativa” – pag. 67

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

UMA VERDADEIRA LUFADA DE AR FRESCO


  1. A honestidade intelectual e o espírito autocrítico são alguns dos predicados dos grandes homens. Nelson Mandela, por exemplo, demonstrou possuir ambos quando, a propósito de estar a ser tido quase como um semi-deus, disse: “Isso foi uma das coisas que me preocuparam – ter ascendido à posição de semi-deus – pois daí em diante você não é mais um ser humano. Eu queria ser conhecido apenas como Mandela, um homem com fraquezas, algumas das quais são fundamentais, e um homem que é engajado”.

  1. Agora, nos últimos dias, um renomado cientista norte-americano, Richard Muller, Professor de Física na Universidade de Berkeley, na Califórnia, até há pouco tempo tido como um cientista céptico relativamente à responsabilidade dos seres humanos no aquecimento global do nosso planeta, alterou o seu posicionamento, tendo, em artigo de opinião no New York Times, escrito a seguinte frase: “Não esperava isto, mas, como cientista, acho que é meu dever permitir que a evidência mude a minha opinião”. No passado, Richard Muller não só desresponsabilizava o papel do homem no aquecimento global como punha mesmo em causa a própria existência do aquecimento global. Em claro tom autocrítico, ele define-se, agora, como um “céptico convertido”.

  1. Há poucos anos, escrevi um texto de opinião (ou talvez até mesmo mais de um texto) em que me debruçava sobre a problemática do aquecimento global. Terá sido, segundo me lembro, aquando de uma reunião cimeira mundial dedicada à definição de estratégias e políticas para o seu combate. Fi-lo, reconheço, suportado pela minha relativa ignorância em relação a essa matéria.

  1. Como é meu apanágio, pretendi apenas sensibilizar a nossa opinião pública para os riscos que todos corremos, caso os grandes decisores mundiais não tomem as medidas julgadas as mais adequadas e urgentes. Limitei-me, naturalmente, a colocar a tónica na dimensão económica dessa questão – como é minha obrigação. Como não podia ser de outro modo, o restante espaço científico ficaria ao cuidado dos argumentos dos físicos, dos ecologistas e de outros especialistas correlacionados.

  1. Infelizmente, a minha abordagem não teve a pretendida sequência, talvez porque a questão ainda não prenda devidamente a atenção da maioria dos nossos “opinion-makers”, possivelmente mais preocupados, por enquanto, com outras matérias eventualmente mais apaixonantes. Mesmo assim, mantenho a esperança de que as questões ambientais venham a fazer parte, no futuro, das pautas políticas e sociais do nosso país.

  1. Hoje, facilmente se percebe que, por vezes, alguns pesquisadores são capazes de desvalorizar a busca da verdade científica e pautar o seu trabalho na base de outros valores e referências. Por exemplo, já houve quem tenha obedecido mais aos interesses egoístas do fortíssimo lobby do tabaco, tendo feito parecer que o consumo do tabaco não seria o responsável pela disseminação do cancro nos pulmões. Também o ex-Presidente norte-americano, George W. Bush, procurou justificar a sua recusa em assinar o Protocolo de Kioto em pareceres de especialistas que põem em causa o papel da acção humana no aquecimento global. Sabe-se agora, porém, que alguns desses pesquisadores não passam de “agentes infiltrados” pelo lobby das petrolíferas e de outras grandes multinacionais, nomeadamente, da indústria automóvel, verdadeiros motores da economia norte-americana.

  1. Vale a pena recordar também o papel desempenhado pelo ex-Vice-Presidente norte-americano, Al Gore, na sua tarefa de chamar a atenção do mundo para os riscos ambientais decorrentes do aquecimento global. No documentário que o celebrizou (mais até que no seu papel de Vice-Presidente), Al Gore ancorou-se em 3 pilares: i) Milhares de estudos científicos têm provado que o aquecimento global é uma realidade e constitui uma séria ameaça para a vida do nosso planeta; ii) Que, ao contrário do que afirmam certas correntes, políticas públicas correctas e consistentes baseadas no planeamento ambiental podem, sim, estimular as economias dos países; iii) Que o aquecimento global não é somente um ciclo natural da vida da Terra, mas, sim, o resultado das actividades humanas no campo industrial, sendo o recurso aos combustíveis fósseis o seu principal responsável.

  1. O primeiro pilar da denúncia de Al Gore foi confirmado pelo desastre provocado pelo furacão Katrina que varreu literalmente a histórica cidade norte-americana de Nova Orleães. O segundo pilar tem respaldo num trabalho apresentado pelo Programa das Nações Unidas para o Ambiente onde se mostra que é possível, sim, criar inúmeros empregos associados à implementação de energias limpas e renováveis.

  1. O recente posicionamento do Professor Richard Muller tornou-se um grande reforço para a corrente mundial que se vem batendo pela preservação do ambiente e para que a vida não vá, paulatinamente, desaparecendo do nosso planeta, fruto da actividade depredadora e destruidora do homem.