quinta-feira, 18 de abril de 2013

GENTE SEM LIMITES

1. O atentado de 15 de Abril, durante a Maratona de Boston, nos EUA, posso dizer que foi um acto de enorme cobardia, mesmo que o número de mortos tenha sido reduzido – quando comparado, por exemplo, com os cerca de três mil mortos que sucumbiram na queda das Torres Gémeas do World Trade Center de Nova Iorque, no despenhamento do Boeing 474 próximo de Shanksville, na Pensilvânia, e no ataque ao edifício do Pentágono (a sede do Departamento de Defesa dos EUA), no Condado de Arlington, Virgínia, nos arredores de Washington.




2. A repulsa que ainda sinto pelo atentado de Boston é estimulada pelo facto de não me ser fácil achar qualquer explicação que não seja uma vontade doentia de causar dor a outrem, a quem apenas estava ali para se divertir, atletas e espectadores. Trata-se de um acto bárbaro, um dos mais hediondos que já conheci. Escolher a prática desportiva para matar, é de loucos.



3. Recuando no tempo, vem-me á mente o ataque a atletas israelitas em Munique, durante os Jogos Olímpicos de Verão de 1972, em que pereceram 11 integrantes da caravana desportiva de Israel, e 6 outros indivíduos, sendo um deles 1 polícia alemã e 5 dos 8 atacantes.



4. Quer o atentado de Boston, quer o atentado terrorista de Munique visaram, directa ou indirectamente, o desporto, e o desporto deveria, por definição, ficar fora desse tipo de práticas de morte, pois o desporto para além de ser saudável, visa também unir as pessoas. O desporto coloca-se para além das diferenças, inatas ou adquiridas, ultrapassando as raças, locais de nascimento, convicções políticas ou ideológicas, mesmo até a própria religião. O desporto deveria ser visto por todos como o espaço da união na diferença.



5. O ataque aos atletas de Israel em Munique teve uma clara motivação política. O grupo sequestrador dos atletas de Israel pretendia vingar-se da morte de 3 elementos de um outro grupo terrorista que, dias antes, havia desviado um avião da Lufthansa e fora morto. Sabe-se hoje que o grupo terrorista que atentou contra os atletas israelitas fora treinado em território líbio, já sob o governo do Coronel Muhamar Kadhafi.



6. O atentado de Munique visou civis, matou atletas. O atentado de Boston também visou civis, mas de um modo indistinto, inclusive, matou apenas que estava ali como público. O atentado de Munique matou gente de uma única nacionalidade (com excepção da mulher política): israelitas. O de Boston não teve em conta a nacionalidade, o seu alvo era quem ali estivesse, ou na pista, ou na assistência. A única semelhança entre eles é que atacaram uma área de prática desportiva. No resto, não são, pois, comparáveis.



7. Em 1985 um comando palestiniano, dirigido por um líder revolucionário de nome Abu Abbas, levou a cabo um ataque contra um navio de cruzeiro que navegava em águas egípcias, o “Achille Lauro”, exigindo de Israel a libertação de 52 prisioneiros palestinianos. Dessa acção, resultou a morte de um judeu americano, de nome Klinghoffer, que se locomovia em cadeira de rodas. Viajava acompanhado pela esposa em comemoração à data do seu casamento. Foi morto e atirado ao mar. Tal facto horrível chocou o mundo. Tinha motivações políticas, mas isso não é bastante para desculpabilizar os seus autores. A política não pode ser vista como o campo do vale tudo… Tem que haver limites, senão, o mundo transforma-se numa autêntica selva…



8. No dia 11 de Março de 2004, explodiram dez bombas, quase em simultâneo, em 4 comboios numa estação ferroviária de Madrid, com um saldo negativo de 191 mortos e mais de 1.700 feridos. A autoria foi atribuída a uma célula terrorista islâmica, supostamente ligada à rede Al-Qaeda. Os membros da referida célula terrorista suicidaram-se, fazendo explodir o apartamento onde estavam refugiados, na localidade de Laganés.



9. No dia 7 de Julho de 2005, estoiraram, em Londres, 4 bombas no seu sistema de transporte público, em plena hora de ponta, alvejando 3 composições do Metro e um autocarro de 2 andares do “London Buses”. Apuraram-se 52 mortos e cerca de 700 feridos.



10. O ataque de 11 de Março em Madrid e o de 7 de Julho em Londres são, claramente, uma reacção islâmica ao sucedido no Afeganistão e no Iraque. Mas, nem por isso se deve deixar de os classificar como actos selvagens. Na minha perspectiva, não devem orgulhar que os pratica e até mesmo quem os aplaude. Aos olhos da humanidade, diminui os seus autores e os seus apoiantes. Muito menos, glorifica uma causa.



11. O Reino Unido já conhecera antes, situações igualmente demasiado dramáticas como, por exemplo, o atentado de Lockerbie, em 1988, num avião Boeing 747 da Pan Am, que se saldou em 270 mortes, que haviam partido do aeroporto de Heathrow, em Londres, com destino a Nova Iorque. A responsabilidade deste acto foi atribuída ao regime líbio do Coronel Kadhafi que, ao aceitar pagar uma indemnização de muitos milhões de dólares às famílias das vítimas, na prática assumiu a sua quota de responsabilidade no acto. Apurou-se ainda que a autor material do atentado fora o agente dos serviços secretos líbios Abdel Al-Megrahi, posteriormente condenado a prisão perpétua.



12. Estes actos em que se sentiu a “mão invisível” do Coronel Kadhafi mostram o quanto ele desprezava a vida alheia, a vida dos que eram o objecto dos seus ódios. Daí que eu não tenha vertido uma única lágrima pelo seu desaparecimento. Embora não me tenha dado qualquer satisfação e prazer o modo como ele terminou. Lamentei publicamente, não a queda do regime, apenas o uso desmesurado da violência e o espectáculo de verdadeira barbárie que foi a sua execução.



13. O atentado de Boston trouxe, de novo, à tona o lado mau do ser humano. Seja quem for que o praticou mostrou que ainda há muito por fazer, até que o lado bom do Homem se sobreponha totalmente ao lado mau do Homem.

quarta-feira, 13 de março de 2013

SOBRE O EVENTUAL FIM AO SUBSÍDIO DOS COMBUSTÍVEIS


  1. Os meios de comunicação do Estado, nomeadamente, Televisão Pública de Angola (TPA) e Jornal de Angola, tornaram pública a notícia sobre a eventualidade de o Governo vir a retirar, em parte ou na totalidade, o subsídio que vem sendo dado aos combustíveis. Quem, explicitamente, colocou tal questão foi um quadro sénior da Sonangol, a empresa que lidera esta matéria, em representação do Estado angolano.

 

  1. Como todos sabemos, o preço dos combustíveis em Angola é tido como demasiado baixo, precisamente porque o Estado assumiu o ónus desta política de preços, cobrindo o diferencial relativo aos custos e, suponho, também a margem que torna lucrativa a venda. O mesmo sucede com o preço dos transportes públicos, com excepção dos táxis, vulgo “candongueiro”.

 

  1. Os subsídios aos combustíveis e aos transportes públicos inserem-se no que se assume ser a responsabilidade social do Estado, ao lado de outras actividades como a saúde pública, o ensino público, a assistência social, etc.

 

  1. A responsabilidade social do Estado é uma das suas tarefas mais nobres, sobretudo, dado que existem segmentos da sociedade com exíguos rendimentos. Tal dimensão do Estado funciona como um verdadeiro estabilizador social, evitando rupturas que, certamente, emergiriam, caso os cidadãos fossem totalmente abandonados aos apetites de lucro do sector privado.

 

  1. Para além da dimensão, o Estado possui outras, mais viradas para garantir a paz e segurança públicas, a defesa da integridade social, a aplicação da justiça, o relacionamento institucional com o exterior, e mesmo funções estritamente económicas. Nas sociedades modernas, a dimensão social do Estado é um verdadeiro barómetro da democracia, e, cada vez mais, “faz” ou “deixa cair” governos.

 

  1. A quase anunciada redução do nível dos subsídios aos combustíveis acarretará, inevitavelmente, uma subida muito sensível nos seus preços de venda, com as consequências que se adivinham.

 

  1. Uma extinção absoluta dos subsídios levará a uma abrupta cavalgada dos preços capaz de lançar o caos na gestão financeira de grande parte das famílias e mesmo até das empresas mais frágeis. Quase ninguém ficará indiferente a esse fenómeno, e o impacto nas tarifas dos transportes será imediato. De um modo geral, os preços dos restantes bens e serviços também serão afectados, pois grande parte da nossa actividade económica e social se realiza com recurso aos meios alternativos de produção de energia – os geradores.

 

  1. Os reflexos em cadeia da subida dos preços dos combustíveis gerarão grande mal-estar social e aumentarão o nível de sofrimento dos sectores mais pobres.

 

  1.  Não estou de acordo com aqueles que dizem que o subsídio aos combustíveis favorece apenas os mais endinheirados. Não estou também de acordo com quem pensa que todos aqueles que possuem transporte próprio são, necessariamente, gente abastada. Esse é um argumento falso que, de modo algum, consegue justificar o apoio a uma tal medida.

 

  1. Os pobres e a classe média (que, se não é pobre, está cada vez mais próxima disso) também beneficiam do preço dos combustíveis relativamente baixo que se pratica em Angola. Aos verdadeiros endinheirados (e aos funcionários superiores da administração), é indiferente o preço que, no futuro, se venha a praticar, ou porque tal item tem um muito diminuto peso relativo na estrutura dos seus custos, ou porque possuem combustível de borla – fornecido através de senhas.

 

  1. Se o preço dos transportes disparar há populares que deixarão de ter capacidade para se transportar de “candongueiro”. Passarão a ir para o emprego a pé. Quase todos os preços subirão, incluindo o preço das propinas escolares – recordo que as escolas hoje funcionam praticamente com base em geradores. Muitas crianças e adolescentes deixarão de ir à escola – os seus encarregados de educação não estarão em condições de suportar os elevados custos de transporte. Aumentará, também, o desemprego entre os trabalhadores domésticos.

 

  1. Penso que a política de ajustamento dos preços deve ser feita de um modo paulatino. Caso contrário, será introduzido mais um factor de ruptura social – o que não convém a um país que se deve desenvolver em harmonia social.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

FIGURAS DE IMPORTÂNCIA HISTÓRICA


  1. Tenho razões profundas para ser cuidadoso perante a expressão “Herói”, uma vez que tal conceito é, na maior parte das vezes, utilizado com grande relativismo. Geralmente, não há unanimidade quando se apoda alguém de “herói”. Os ditos “heróis”, são-no para uns, e deixam de o ser para outros. Depende, pois, do ponto de vista de cada um.

  1. Os gregos antigos resolveram esse “problema” reservando a designação “herói” apenas àquele que possuía atributos capazes de fazer algo de épico. O “herói” dos gregos era alguém que, por justiça, se situava a meio caminho entre os “deuses” e os homens.

  1. Na mitologia grega, o “herói” ou era filho de um “deus” com um ser humano, portanto, mortal; ou então, era filho de uma “deusa” com um ser mortal. A dimensão do “herói grego” era quase sobrenatural. Assim, o assunto ficava resolvido: como não se disputam os “deuses”, também não se disputam aqueles que os “deuses” geraram…

  1. Os gregos atribuíam ao seu “herói” alguma ambiguidade: tinha a complexidade psicológica, social e ética da condição humana, ao mesmo tempo que a capacidade para a realização de actos inatingíveis ao ser humano. Os “heróis gregos” seriam dotados de maior capacidade de coragem, determinação e paciência que o simples ser humano. Transcendiam as capacidades humanas, porém, sem atingir o patamar das divindades. Os gregos não confundiam os “actos heróicos” com o “auto-sacrifício”. O “auto-sacrifício” era tido por “martírio”.     

  1. A um herói devem exigir-se atributos excepcionais de nobreza e altruísmo. Porém, nem sempre o “herói” de hoje é movido por tais atributos. Ele pode mesmo realizar actos de natureza egoísta, por vaidade, orgulho, ganância e até mesmo por ódio. Há quem diga que esses não são propriamente o herói mas, sim, o anti-herói.

  1. Vulgarmente, a figura do herói é confundida com a do personagem que realiza grandes feitos. Por exemplo, quem assume papel de liderança na criação de um Estado é tido por herói. O vencedor no campo de batalha é também assumido por herói. Todos os seus actos são assumidos de uma forma positiva porque tiveram em atenção o fim em vista. O herói mata e o dano causado por ele é desculpado, ou menorizado, em benefício do objectivo maior.

  1. Na política, por exemplo, será utópico encontrar a figura do herói absoluto. Para se ser herói absoluto teria que se ser bem visto por todas as partes, aceite por todos, sem excepção.

  1. Osama Bin Laden será herói para uma parte dos radicais islâmicos – nunca será para todos os islâmicos. O mesmo Bin Laden é hoje a imagem do demónio para aqueles que não partilham a sua visão do mundo.

  1. Numa guerra, todos têm motivações distintas para estarem dum lado ou do outro. Não há, pois, razões absolutas. Haverá, sim, actos de maior ou menor bravura. Há uns que são mais destemidos – por isso, destacam-se dos restantes.

  1. A concepção do mundo e da vida mudou muito, desde que a Grécia Antiga desapareceu. O “herói grego” é uma utopia. Para mim, o herói absoluto actual é outra utopia.

  1. Aqueles que hoje são tidos por heróis não são filhos de “deuses do Olimpo” com seres terrenos. Eles são seres humanos reais, com virtudes e defeitos. Possivelmente, mais virtudes que defeitos. Ou então, muitos defeitos e algumas virtudes que sobressaem e os tornam demasiado visíveis. Prefiro para esses não o título de heróis, mas, sim, o de “figuras de importância histórica”.

  1. É no grupo de “figuras de importância histórica” que enquadro aqueles que se bateram com denodo pela independência nacional; também todos quantos se bateram (ou se batem) para a criação de sociedades mais justas e equilibradas; aqueles que nas suas diversas áreas de actividade se destacam criando coisas novas, processos inovadores.