quarta-feira, 14 de setembro de 2011

OS RECURSOS NATURAIS NA GEOESTRATÉGIA


A situação na Líbia irá por muito mais tempo dominar os principais espaços noticiosos internacionais. Hoje fala-se dos avanços dos rebeldes, na sua vontade e pressa para controlar a totalidade do país. Evidencia-se, também, o seu empenho em capturar, vivo ou morto, o Coronel Muhammar Gadhafi. Saltou ainda para as primeiras páginas a fuga para a Argélia de parte da sua família onde, como seria de esperar, receberam acolhimento. Correm rumores ainda não confirmados ou desmentidos da morte de um dos seus filhos – Khamis – um dos principais líderes militares.

Acredito que, amanhã, e já sem Gadhafi, poderão vir a subsistir, mesmo que temporariamente, algumas bolsas de resistência, talvez protagonizadas por fracções tribais mais relutantes em aceitar o novo poder. Quando tudo já estiver mais calmo, a tónica recairá, finalmente, sobre a reconstrução do país. Entretanto, não menosprezo a possibilidade de surgirem manchetes nos espaços noticiosos, sobre eventuais – e até mesmo previsíveis – dissenções e ajustes de contas entre as próprias facções dos rebeldes, motivadas por questões de visão e de estratégia política, com fundo étnico, e mesmo até por afinidades religiosas.

Por enquanto, faz todo sentido os fazedores de opinião estarem a tentar descobrir razões mais ou menos ocultas, vontades e ambições mais ou menos camufladas que terão motivado (e até estimulado) a intervenção estrangeira no conflito da Líbia.

Mesmo que, teoricamente, a intervenção estrangeira tenha sido decidida para evitar o massacre que o Coronel Gadhafi e o seu filho Seif Al-Islam prometiam publicamente, o potencial de recursos naturais da Líbia, em especial o petróleo e o gás, é suficientemente atractivo para gerar tal estado de ânimo. Contudo, a avidez da procura por petróleo e por gás natural em nada faz diminuir a legitimidade dos líbios que tudo fizeram para derrubar o ditador renitente.

As imagens que, entretanto, vamos vendo são suficientemente elucidativas. Elas mostram uma grande parte da geração mais jovem dos líbios, tal como na Tunísia e no Egipto, demasiado empenhada em escrever uma nova página na história do seu país. Qual será a história que daí virá? Por momentos, é a grande incógnita…

É ponto assente que a Líbia é dos países do mundo com maior potencial de petróleo e gás e possui as maiores reservas do nosso continente. Mesmo que os seus níveis de exploração sejam relativamente modestos, se comparados com esse potencial. Em cerca de 70%, o PIB da Líbia é gerado a partir do petróleo. Agregando-lhe, porém, o gás natural, então, a fasquia sob para os 95%.

Ao contrário do que se possa pensar, quem, em grande medida, explora o petróleo e o gás da Líbia são precisamente companhias ocidentais, e a maior beneficiária é a ENI, a companhia estatal de um dos países que mais prontamente se mostrou disposto a derrubar o Coronel, a Itália. Mas lá estão ainda a Total (francesa), a BP (britânica), a Repsol (espanhola), a OMV (austríaca). Também a Hess, ConocoPhilips e Marathon (americanas). As companhias russas, chinesas e outras, embora também presentes, estavam ainda em processo de afirmação naquele mercado que possui um petróleo de muito boa qualidade, demasiado apetecido pelas refinarias europeias.

Até ao eclodir do conflito, os níveis de exportação petrolífera da Líbia estavam próximos dos de Angola: um pouco acima de 1 milhão e quinhentos mil barris/dia. (Recordo que a actual cifra de produção do nosso país baixou para os arredores do um milhão e meio de barris/dia, por razões puramente conjunturais. Não há muito tempo, estivemos a produzir em torno de 1 milhão e oitocentos mil barris/dia).

O Ocidente era o destino privilegiado das exportações de petróleo líbio: 38% ia para a Itália; 19% para a Alemanha, 8% para a Espanha, 7% para os EUA, 6% para a França, 3% para a Grécia. Somados todos estes países, eles adquiriam 81% das exportações de petróleo da Líbia. Para a China destinavam-se 5% do total e os restantes 14% estavam dispersos por variados países.

A Itália dependia em 20% do petróleo líbio, a França, Suíça, Áustria e a Irlanda dependiam numa percentagem acima dos 15% cada um. Vemos assim que, mesmo que o discurso político do Coronel fosse profundamente anti-ocidental, o Ocidente não deixava de ser o seu parceiro privilegiado, quer para produzir, quer para comprar.

A importância estratégica da Líbia tem também a ver com outros recursos, em especial os seus recursos aquíferos. Segundo estudos e avaliações recentes, da responsabilidade das Nações Unidas, a maior reserva de água subterrânea do mundo passa pelo subsolo líbio. Trata-se do Sistema Aquífero do Arenito da Núbia que, além da Líbia, ainda inclui países como Egipto, Chade, Sudão.

Estima-se que a totalidade de água doce subterrânea do mundo seja da ordem dos 10 milhões de km3, e que 150 mil km3 estejam em subsolo líbio. No futuro, a humanidade irá fazer um uso crescente desse recurso subterrâneo, dado o relativo esgotamento da água doce com origem nos rios e nos lagos.

Se admitirmos que esta e outras guerras são alimentadas substancialmente pelo petróleo, então é de se supor que, numa perspectiva de longo prazo, haverá guerras com o pano de fundo das águas subterrâneas. E tais guerras serão cada vez mais globais, pois que as águas subterrâneas são transfronteiriças.

A gestão e a exploração desse precioso recurso terão que ser feitas numa perspectiva do conjunto dos países, e não apenas com base na soberania nacional. Ou seja, requererão cooperação internacional e instituições governamentais e legais apropriadas.
A futura configuração política do mundo não pode, pois, assentar em regimes ditatoriais, sob pena de ficarmos permanentemente sujeitos aos seus caprichos e humores. Os ditadores não cooperam – chantageiam.

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