segunda-feira, 8 de julho de 2013

DOIS ÍCONES: CARLOS MARIGHELLA E CARLOS LAMARCA


  1. Voltei a reflectir sobre o actual momento político do Brasil, numa conversa que mantive com uma jovem investigadora desse país latino-americano. A nossa conversa valeu a pena, sobretudo, porque pertencemos a gerações diferentes, mas estamos a ter o privilégio de acompanhar estes momentos que se mostram cruciais na vida do seu país.

 

  1. Como certamente poderão imaginar, estive muito atento ao que se passou no Brasil, durante a década de 1960, até ao fim da ditadura que se prolongou por 20 anos. Contudo, a minha interlocutora, nascida precisamente no ano das “Directas Já!”, ainda está na flor da idade, pertence, por isso, à geração que já se tornou protagonista de um movimento de contestação cujos resultados, até agora, ainda são imprevisíveis.

 

  1. Durante o nosso encontro, tive a oportunidade de recordar duas figuras que foram muito marcantes na oposição à ditadura brasileira e que terminaram por tombar de forma trágica: Carlos Marighella e o Capitão Carlos Lamarca.

 

  1. Posso estar enganado, mas fiquei com a sensação de que esses dois ícones da luta contra a ditadura, Carlos Marighella e Carlos Lamarca, já não inspirarão muito (ou, talvez até, nada) os movimentos sociais desta época, pois os contextos em que eles existiram são completamente distintos dos actuais. Carlos Marighella e Carlos Lamarca lutaram por uma abertura democrática e pelo fim das injustiças sociais típicas dos regimes totalitários. Em contrapartida, os movimentos sociais dos nossos dias direccionam-se, sobretudo, para o aperfeiçoamento de um regime democrático já implantado.

 

  1. Achei conveniente rememorar o percurso desses dois homens que fazem parte da luta do povo brasileiro pela construção de uma sociedade mais justa, mais solidária e mais harmoniosa.

 

  1. Carlos Marighella era baiano e filho de um imigrante italiano com uma mulher negra descendente da etnia africana dos haussás. Pelo seu percurso de vida, vê-se que terá herdado o espírito combativo dos seus antepassados africanos, protagonistas de grandes movimentos de resistência contra a escravidão. Carlos Marighella estudou engenharia, e muito cedo se tornou militante do Partido Comunista Brasileiro, de que se viria a desligar, em 1966, aos 55 anos, por achar os seus métodos de luta pouco adequados para o derrube da ditadura que, dois anos antes, se instalara. Porém, até chegar a este ponto, Carlos Marighella fez um longo e doloroso percurso de luta contra a ditadura de Getúlio Vargas, enfrentando várias vezes as prisões. Tornou-se célebre pela sua resistência e pela firmeza de princípios. Carlos Marighella entrou na clandestinidade em 1948 e nela permaneceu durante 21 anos, até ser assassinado, já na condição de fundador e líder do movimento de guerrilha denominado Aliança Libertadora Nacional.

 

  1. De algum modo, a minha geração política ficou marcada pela gesta guerrilheira de Carlos Marighella, o homem que optou pela criação de um movimento de guerrilha urbana para derrubar a ditadura militar. Foi isso o que eu disse à minha interlocutora, uma jovem académica dedicada, sobretudo, a questões culturais mas, mesmo assim, muito atenta ao actual momento político do seu país. Falei-lhe, igualmente, do Capitão Carlos Lamarca, aquele que se tornou muito notado quando subtraiu de um quartel militar em São Paulo um camião carregado de armamento para dar apoio à guerrilha conduzida por Carlos Marighella.

 

  1. O Capitão Carlos Lamarca foi herói para muitos, pelas suas acções espectaculares de guerrilha. Mas, para outros, era um vilão, pois os seus actos guerrilheiros redundaram em mortes de polícias e militares.

 

  1. Carlos Lamarca tomou maior consciência das injustiças sociais, em 1962, quando cumpria missão militar na Palestina, na Faixa de Gaza, enquadrado nas Forças de Paz das Nações Unidas. Dois anos depois, eclodiu o Golpe Militar no Brasil que impôs a Ditadura. Decidiu, assim, em 1969, desertar do Exército com armamento. Criou a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), como instrumento para o derrube do regime militar, tendo-se tornado um verdadeiro pesadelo para o regime. Posteriormente, integrou o Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8). E foi neste movimento de guerrilha que veio a falecer às mãos do Exército, em 1971, no Estado da Baía.

 

  1. A acção revolucionária destes dois combatentes brasileiros tem que ser analisada à luz do contexto social e político da época em que se notabilizaram. Terá sido o carácter impiedoso do regime ditatorial que estimulou os seus actos violentos que causaram danos materiais e humanos não negligenciáveis. A sua estratégia de luta armada foi apenas mais uma das diversas formas de luta de que se socorreram os descontentes.

 

  1. Hoje o Brasil atravessa um momento muito particular com protestos de rua que mobilizam milhares e milhares de cidadãos. Tais protestos não põem em causa o regime democrático. Questionam, sim, opções de governação e práticas delituosas como a corrupção, que fragilizam desenvolvimento harmonioso da sociedade. Não creio, pois, que daí possam emergir mais líderes como Carlos Marighella e Carlos Lamarca. Para mim, os regimes democráticos possuem mecanismos de correcção que lhes permitem ultrapassar os maus momentos. As democracias não são regimes acabados e têm potencial para se regenerarem e aperfeiçoarem.

 

  1. Foi isso o que eu disse à minha jovem interlocutora. Não notei nela propriamente uma política mas, sim, uma intelectual atenta aos desenvolvimentos actuais no seu país. Foi graças a esse nosso encontro que tive ocasião para rememorar um pouco do percurso desses dois grandes homens que, de certa forma, adubaram o meu percurso de vida.

8 comentários:

  1. Como pode alguem dizer que estes dois guerrilheiros e traidores da nação, assassinos e torturadores, foram dois "grandes homens". Com este depoimento estamos perdendo o valor da Democracia.

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  2. São pessoas simplórias como essas que, sem perceber, ajudam a espalhar a mentira sobre a nossa história, levando aos leitores menos cultos uma imagem heroica de bandidos como esses, insensíveis à desgraça que queriam impor ao povo brasileiro. Pobre povo!

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  3. Lamentável ver deputados defendendo e homenageando esses dois bandidos na votação do impeatchment ontem.

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    1. Assassinos da esquerda mistificados pela mesma.

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    2. Anônimo 29 de agosto de 2016
      Lamentável é e exteriorização de pessoas como as que constam nos comentários acima que, sem mínimo conhecimento sobre história e luta pela instalação de mecanismos realmente humanísticos e democráticos no País, sem qualquer pudor, emitem comentários tão na velha tática do "oba oba" tão nocivo ao Brasil.

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  4. Sérgio Paranhos Fleury que foi herói? Hahahaha

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  5. Sérgio Paranhos Fleury que foi herói? Hahahaha

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  6. Sérgio Paranhos Fleury que foi herói? Hahahaha

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