sexta-feira, 10 de agosto de 2012

O “CAMARADA VOSTOK”


  1. Vista do espaço, a Terra assume uma muito bonita cor azul, como constatou, há 51 anos, o cosmonauta soviético Yuri Gagarin, o primeiro ser humano a orbitar no espaço. Ele tripulava a nave espacial Vostok I, dando, pois, início à corrida espacial entre a União Soviética e os Estados Unidos da América. Era a época da Guerra-Fria e cada um destes dois países não poupava esforços para se superiorizar ao outro. O Vostok tem, pois, um enorme significado para o mundo inteiro, que o associa sempre, e de um modo indelével, ao nome de Yuri Gagarin.

  1. Para mim, Vostok também tem um outro significado, faz-me regressar a uma etapa do meu percurso de vida, quando o destino me colocou no ponto de cruzamento com um homem, aparentemente simples, mas que, afinal, se revelou como um dos mais eficazes agentes da PIDE, a polícia política portuguesa. Chamava-se Sidónio mas, para mim e para outros elementos da luta clandestina, era o Vostok que, traduzido do russo, significa Planeta. Morava na Vila Alice e mantinha um negócio na vila de Catete. Fazia com certa regularidade o percurso Luanda – Catete, o que lhe permita conhecer gente ligada à clandestinidade articulada com a guerrilha instalada na Primeira Região Político-Militar do MPLA.

  1. Aparentemente, o Vostok (Sidónio) cumpria correctamente o mandato que recebia dos revolucionários, quer dos que estavam nas matas, quer dos que estavam na cidade. Levava de um lado para o outro os “materiais” que lhe eram entregues. Conseguiu, assim, transformar-se no nosso principal “pombo-correio”.

  1. O Juca Valentim, meu companheiro de luta (prematuramente desaparecido), líder do CRL (Comité Regional de Luanda do MPLA), acreditava piamente no estafeta, vendo nele um fiel servidor da nossa causa revolucionária. O Planeta (Vostok) fazia tudo para manter essa aparência. Chegava mesmo a pedir que arranjássemos mais “material” para ele levar em socorro dos combatentes que mantinham a chama da luta armada nas matas na Primeira Região. Para o Juca Valentim ele era homem de inteira confiança do lendário Comandante Ingo, o meu querido amigo Benigno Vieira Lopes. Pôr em causa esse homem que ligava directamente ao Ingo era duvidar da própria causa – o era imperdoável, para o Juca.

  1. O Planeta gravitou durante muito tempo em torno de alguns de nós. Também funcionava como “pombo-correio” do meu primo Mário Guerra, outro activista da luta clandestina com múltiplas articulações. O Mário Guerra morreu há pouco mais de um ano. Felizmente, ainda tivemos a possibilidade de conversar e recordar, com alguma angústia, as peripécias do famoso “pombo-correio”, o Vostok.

  1. Estafeta “seguro”, o Vostok tinha um estatuto especial: apenas se relacionava com os chefes, e mesmo aqui, com um número muito restrito, para garantir a confidencialidade que a luta clandestina exigia.

  1. Ao nível do CRL, éramos em número bastante reduzido os que sabíamos da existência do “pombo-correio”. Os membros da células, certamente que desconfiavam que possuíamos um elo de contacto bastante eficaz, dado que o “material” saía e, aparentemente, chegava inteiro e completo ao seu destino: às matas, aos nossos heróicos guerrilheiros. Foi assim durante anos. Eu acredito que o Vostok cumpria, pelo menos em parte, as missões de que era incumbido, quer num sentido, quer no outro. No seu vai-e-vem entre a cidade e o campo.

  1. O Vostok trazia mensagens supostamente provenientes dos nossos camaradas, relatando as dificuldades e os feitos da luta, a precariedade dos meios em posse dos guerrilheiros, as difíceis condições de vida destes e das populações em seu redor. Falava dos quartéis “Brno” e “Europa”, símbolos da resistência na Primeira Região. Os seus relatos emocionavam-nos e alimentavam a nossa determinação de prosseguirmos nessa senda, até à vitória final! Dizia que o Comandante Ingo já fazia algumas incursões próximo da Luanda. Que, disfarçadamente, outros combatentes penetravam no perímetro urbano, pondo em cheque a malha de segurança das forças armadas portuguesas e da PIDE. Enfim, no meio das notícias sobre dificuldades e sofrimentos, as aventuras relatadas pelo Vostok enchiam de orgulho e de esperança qualquer revolucionário.

  1. A luta clandestina e a luta armada alimentaram-se de sonhos, de esperanças, mas, também, de dor e sofrimento. Sobretudo, daquele sofrimento que não se traduz em desânimo e, sim, na convicção de a nossa causa ser justa. Se alguém caísse pela causa, a saía causa ainda mais fortalecida. Era assim a nossa alma.

  1. O Vostok trazia e levava “coisas”. Um dia o meu saudoso companheiro Juca Valentim apareceu, naquele seu estilo revolucionário, com “material” vindo da mata… Entre outras coisas, trazia a Acta do julgamento e da execução do Miro, nas matas da Primeira Região.

  1. O Miro, o Casimiro de Almeida, responsável pelo sector da educação fora julgado por traição à causa revolucionária. Já não me recordo dos pormenores, mas, entre outras razões, “por falta de respeito para com o povo”. Supostamente, também, “por querer manter contacto com os portugueses”. Creio que era disto que o acusavam. O Miro tinha sido estudante universitário na Europa (era estudante de Economia) e respondera ao apelo do Presidente Neto de abandonar “o comodismo da Europa” para vir lutar ao lado do povo. Veio, abandonou tudo.

  1. Dizia-se que o Miro era culto e com boa formação política. Tinha tido cargos de responsabilidade na Juventude do Movimento. Era, por isso, elemento de referência, mesmo para nós, jovens do “Interior” (Era assim que se designavam os militantes da luta clandestina).

  1. Desconfiei da qualidade das acusações feitas ao Miro. Fiquei também bastante chocado com o seu fim, com o modo como foi fuzilado. Estava tudo relatado na Acta que o Vostok trouxe para nós.

  1. Interroguei-me sobre o porquê de os nossos camaradas nos terem mandado aquela Acta. E para quê? Para nos informarem apenas, estreitando desse modo a nossa relação?

  1. Coloquei a questão ao Juca e ao Vicente. Não seria a PIDE a ter entregue a Acta ao Vostok, para ele ficar junto de nós a imagem de um estafeta de confiança, ao ponto de lhe entregarem a prova desse acto? O quê que o “Interior” ganhava ao tomar conhecimento do seu fuzilamento e das razões que o determinaram?

  1. Disse ao meu companheiro Juca Valentim: “Lamento dizer-te, Juca, mas desconfio que o Vostok também trabalha para a PIDE! Ele está a fazer o papel de agente duplo! Não sei apenas para qual dos lados ele é mais sincero…”. O Juca e o Vicente ouviram-me, atentos. O Juca abalou, vi no seu olhar, mas portou-se como um chefe: não respondeu.

  1. A partir daquele momento, tomei consciência de que a PIDE já nos tinha tomado por dentro. A PIDE tinha entrado profundamente nas nossas hostes. Estávamos “fritos”. Era só uma questão de tempo... E foi assim, de facto.

  1. Passados tempos, o Juca disse-me que tínhamos uma missão de alto risco a cumprir: que nos íamos encontrar com guerrilheiros, entre os quais o Comandante Ingo, numa localidade depois de Catete, em local secreto. De quem viera a instrução? O Juca respondeu-me que o Vostok trouxera a missão do próprio Comandante. Que iríamos os três, Juca, eu e Vicente. A minha resposta foi: “Nem penses! É a PIDE que se quer desenvencilhar de nós. Querem decapitar o CRL, e apanhar o Comandante, que nem um pato…” O Juca disse-me para pensar bem, pois desobedecer a uma ordem revolucionário do Comandante, a uma chamada sua, era grave indisciplina revolucionária. E, por isso, pagava-se caro…”

  1. Passaram-se poucos anos e fomos realmente presos pela PIDE. Primeiro o Juca, depois o Vicente, o Vasco de Jesus, Chico Caetano, o Gilberto. Eu. E mais outros: Calhandro, Aldemiro, Jaime Cohen, Alberto Neto, Alcino Borges, Nado, André Mateus Neto, Augusto Bengue, Paiva Domingos da Silva, e muitos mais aqui em Angola. Para além de Lisboa: Garcia Neto, Rui Ramos, Joaquim Pinto de Andrade, Sabrosa, Diana Andringa, Raul Feio, Zefos. E mais. E mais. Caiu boa parte do CRL e a sua conexão de Portugal.

  1. E o Vostok? Será que o Vostok também estaria preso? Por que não, se ele era um dos principais “pombos-correio”? Ele que conhecia alguns dos contactos da organização…

  1. Poucos dias antes da minha prisão, o meu primo Mário Guerra abordou-me secretamente (num sítio ermo junto ao actual Hospital Américo Boavida), perguntando-me se eu tinha um estafeta, pois queria dar fuga a um companheiro nosso (operário da tipografia onde se fazia a revista Notícia) que entrara na clandestinidade. Ele precisava de ser posto “ao fresco” imediatamente. Disse-lhe que já não confiava há muito tempo no estafeta principal, no Vostok, e que, de imediato, não tinha outro em mão. Que talvez o Vicente tivesse algum outro, mas que nunca me tinha posto ao corrente. E o Vicente estava preso.

  1. Vou encurtar caminho. O Vostok continuou em liberdade… Fomos todos, ou quase todos para a “pildra”, para a cadeia, e depois deportados, uns para São Nicolau, outros para o Tarrafal. No Tarrafal constatei que muitos dos presos que lá encontrei e que tinham estado ligados à Primeira Região, tinham também eles conhecido e utilizado o Vostok como elo de contacto… Mais grave: além de terem sido presos em vagas sucessivas, todos conectados com o Planeta, ainda assim acreditavam que “O Camarada Vostok”, como eles diziam, era um grande revolucionário. Depois, vim a saber que o Vostok ainda continuou a fazer os seus estragos…

  1. O último estrago do Planeta – talvez o maior e mais cobarde – foi ter entregue às mãos da PIDE o Comandante Ingo, grande glória da nossa luta. O Heróico Comandante foi atraído a uma emboscada e entregue, praticamente de bandeja, à polícia política portuguesa. A notícia da sua prisão tocou no nosso cérebro como um terramoto – mesmo à distância.

  1. Escrevo este texto porque os americanos acabam de mandar uma nave altamente sofisticada ao Planeta Marte. A nave chama-se “Curiosity”. O que espicaçou a minha curiosidade.

  1. Mais de 40 anos depois, lembrei-me do “Camarada Vostok”, o gajo que nos entregou a todos. E se não tivesse chegado o 25 de Abril, que ele teria feito ainda mais? Talvez continuasse por mais tempo “a fazer das suas”, a entregar mais nacionalistas á PIDE. Esta é a minha “curiosity”.

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