sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

DESCANSA EM PAZ MEU AMIGO WELEMA!


  1. Por norma, quando alguém morre, nota-se-lhe apenas os aspectos positivos, desvalorizando-se a outra face da moeda, aquilo que de negativa carregava no seu curriculum de vida. Compreendo e aceito esta regra quase universal. E faço-o sem esforço, sem receio de desvirtuar valores e princípios morais e éticos. Muito menos sem menosprezar os meandros da política – quando da morte de um político se trata.

 

  1. O meu Amigo Agostinho André Mendes de Carvalho era para a generalidade das pessoas um político. Para muitos, era também um escritor, um exímio contador de histórias. Para mim, ele era tudo isso e, também, talvez sobretudo, um Velho e Bom Amigo, um Companheiro com quem tive o prazer de cruzar a vida, já lá vão 44 anos.

 

  1. Eu e o Mendes de Carvalho encontrámo-nos, por força das circunstâncias da Luta de Libertação Nacional, no Campo do Tarrafal, em Cabo Verde, na condição de prisioneiros do regime colonial. Ele com maduros 46 anos e eu com tenros 22 anos.

 

  1. Depois de cumprido o período de cadeia na Prisão de São Paulo, em Luanda, fui para o Tarrafal, com mais 13 companheiros do meu processo político, e lá estava, já há muitos anos, o Mendes de Carvalho – catedrático de uma vida política cheia de meandros e esperanças, por vezes entrecortadas por desencantos.

 

  1. Juntámo-nos – sem nos juntarmos fisicamente – porque o regime prisional de então confinava-nos a casernas diferentes, sem a aparente hipótese de nos contactarmos. O Mendes, o António Jacinto, o Luandino, o Noé Saúde, o Armindo Fortes, o Armando Ferreira da Conceição, o Pacavira e outros companheiros com menor visibilidade mediática repartiam a Caserna 1. Nós, inicialmente, partilhávamos a Caserna 2 com algumas dezenas de prisioneiros vinculados à UNITA. Até que fomos isolados na Caserna 3, de castigo por insubordinação prisional.

 

  1. O Mendes de Carvalho procurou, de imediato, estabelecer contacto connosco – os jovens presos que haviam chegado e que eram a evidência de que a Luta por eles iniciada tinha continuadores, o que lhes renovava a esperança. A nossa presença na cadeia não representava uma derrota – antes pelo contrário, significava que a semente por eles lançada à terra tinha germinado, dando origem a frutos novos, de gerações dispostas a continuar a sua gesta gloriosa.

 

  1. O Mendes de Carvalho engendrou um mecanismo de correio entre nós e ele, socorrendo-se de um buraco aberto no chão da retrete pública do Campo (uma retrete que os presos usavam quando estivessem a gozar da meia “hora de sol” a que tinham direito diariamente). Era nesse buraco que ele colocava discretamente as suas mensagens para nós e nós respondíamos.

 

  1. Por via do buraco da retrete, informávamos sobre os desenvolvimentos da nossa Luta (pelo tempo passado, já estávamos também um pouco desfasados) e ele nos informava das relações que tinha tido com os nossos progenitores e familiares mais próximos. Foi assim que soubemos que ele conhecera o nosso pai, por exemplo. O Mendes de Carvalho conhecera os pais de quase todos nós.

 

  1. Nos seus bilhetes, ele assinava WELEMA. Se ele se veio a consagrar como Wuanhenga Xitu, o escritor, para mim ele será sempre o WELEMA, meu companheiro do Tarrafal.

 

  1. Passados alguns meses, o WELEMA saiu da cadeia, gastos que foram muitos dos seus anos de vida por detrás das grades. E escreveu o seu último bilhete para mim e para o meu irmão Vicente, não só informando da sua eminente saída mas, sobretudo, da necessidade que tinha de ser reintroduzido na actividade política clandestina, quando estivesse em Angola.

 

  1. O meu irmão Vicente preparou com todo o cuidado a “encomenda” que o WELEMA deveria levar, sem ser apanhado pelas autoridades: um bilhete que deveria ser entregue à “Camarada Lemba” (a Delfina, na altura namorada do Vicente, e activista muito empenhada na nossa Luta). Entre outras questões, recomendava a actualização do WELEMA sobre os recentes meandros da Luta e fazer proselitismo em favor do MPLA, uma vez que, quando ele fora preso, ainda só havia dispersos grupos que depois se vieram a transformar no MPLA.

 

  1. A “encomenda” com que o WELEMA saiu do Tarrafal foi devidamente embrulhada na prata de um maço de cigarros e escondida num tubo de pasta de dentes, antecipadamente aberta por detrás. Era a forma mais eficaz de o preso (então liberto) passar sem ser molestado pela rigorosa revista que se fazia à saída.

 

  1. Faz-me já falta o Mendes de Carvalho que, depois, se notabilizou na nossa sociedade e que ficará para a nossa história. Mas faz-me também muita falta o WELEMA, de quem me fiz Amigo, quando ele já tinha 46 anos e eu acabara de entrar na década dos 20. Daí que eu nunca o tenha conseguido tratar de um modo formal, tratando-o sempre por “Tu”, em homenagem à partilha de uma parte da história das nossas vidas – uma parte que é comum a todos quantos sonharam connosco o sonho da Independência. Descansa em Paz, meu Amigo!

1 comentário:

  1. Fiquei quase sem fôlego. Que estória e história!
    Note que nem eu, um libolense com já alguma iluminação, sabia da sua passagem pelas masmorras do Tarrafal... Quanta História há ainda por contar?!

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